Pandemia gera demanda por cirurgia bariátrica no RN

Pandemia gera demanda por cirurgia bariátrica no RN

Paralisações por conta da pandemia de covid gera demanda reprimida de cirurgias de redução de estômago pelo SUS.

A pandemia de covid-19 provocou uma demanda reprimida por cirurgias bariátricas no Rio Grande do Norte e hoje, no Estado, cerca de 120 pessoas aguardam para dar início à chamada atenção terciária, que consiste em uma consulta inicial e triagem no Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol), em Natal. O Huol é o único prestador do SUS no RN para a realização de operação bariátrica. Antes da pandemia, de acordo com o chefe da Unidade de Cirurgia e coordenador do Serviço de Cirurgia da Obesidade e Doenças Relacionadas (Scode) do hospital, Igor Marreiros, essa demanda estava zerada.

Marreiros explica que, com a regularização dos serviços no hospital após as suspensões do procedimento por causa da pandemia (a última parada ocorreu em janeiro deste ano, quando muitos funcionários da equipe foram infectados pela covid-19), a expectativa é de que a demanda de pacientes à espera da consulta seja normalizada em oito meses. “Nossa estimativa é que o tempo de espera por essa primeira consulta gire em torno de 30 dias, como era antes da pandemia”, afirma o médico.

Segundo ele, o hospital atua em um sistema de linha de cuidado, que começa na atenção primária (básica) e secundária (especializada). Ambas são de responsabilidade dos municípios, os quais devem regular os pacientes junto ao Huol após os acompanhamentos iniciais. “Chegando aqui, o paciente faz a triagem. Alguns podem demandar exames e ao, final, ela [a triagem] já vira uma consulta préoperatória. Se a gente não encontrar nada que atrapalhe, o paciente sai da consulta para fazer os exames de avaliação para a cirurgia”,
explica Marreiros.

“Quando tudo ocorre bem, em menos de um mês o paciente volta para finalizar a consulta pré-operatória e entra para o grupo de preparo, onde recebe informações com especialistas sobre nutrição, psicologia, fisioterapia e fonoaudiologia (para treinar mastigação). Após isso, ele vai para uma lista de espera”, completa.

Atualmente, segundo o médico, há 10 pacientes na lista. Parte deles, deverá passar por cirurgia nos próximos dias. “Operamos cerca de três a quatro pessoas por semana. A ordem de operação, dentro do mês, segue fatores logísticos, como a necessidade de UTI, por exemplo”, descreve. Em 2022, até o momento, foram realizados 24 procedimentos.

A Sesap auxilia a linha de cuidado, com o monitoramento de pessoas com sobrepeso e obesidade e propostas de ações políticas para a redução dos casos identificados. “Também apoiamos os municípios com cursos, oficinas e capacitações para os profissionais da Atenção Básica e especializada e desenvolvemos uma linha de cuidado de sobrepeso e obesidade com os municípios de forma mais uniforme”, detalhou Erika Melo, nutricionista do Núcleo Estadia de Alimentação e Nutrição da pasta.

Erika, que é a responsável técnica pela Linha de Cuidado da Obesidade no RN, esclareceu que a Secretaria “atua na articulação com os serviços municipais e o hospital de referência (Huol)”.

Aline Teixeira, de 34 anos, realizou a cirurgia na última quinta-feira (24) e já recebeu alta na sexta (25). Ela, que mora em São Miguel do Gostoso, no Litoral Norte, foi indicada para o procedimento em 2013. “Eu e minha
família tínhamos muito medo do procedimento, até que, em 2020 eu peguei covid-19. Fiquei muito mal, fui hospitalizada e quase morri. Ficamos todos em alerta e decidi fazer a operação”, relata ela, que tem obesidade mórbida, diabetes, hipertensão e asma.

Por causa da infecção pela covid-19, cuja recuperação foi lenta, Aline só pôde iniciar o processo para a cirurgia em outubro do ano passado. “Achei que foi tudo rápido [no processo]. Passei pelo acompanhamento com especialistas e exames e em dezembro já comecei a fase de preparo. Agora, estou ansiosa porque eu e toda a minha família vamos ganhar muito com a cirurgia”, confessa.

Homem busca cirurgia bariátrica desde 2016

Em Natal, o encarregado de obras Pôncio Pilatos da Silva, de 46 anos, possui obesidade mórbida e espera por uma cirurgia desde 2016. Segundo ele, a previsão de realização do procedimento era para 2020, mas em razão da pandemia, a cirurgia não ocorreu. Há dois meses o processo foi retomado. Pôncio precisa passar por avaliações junto a 22 especialistas antes da regulação, o que levará, segundo ele, de seis a 10 meses.

A busca por atendimento médico em função do excesso de peso começou há mais de uma década para o paciente. Ele relata que, em 2010, quando pesava 120 quilos, surgiu uma pequena bolha na perna esquerda. Em uma consulta com uma endocrinologista, o paciente descobriu
que sofreu uma trombose venosa. Do ferimento ocasionado nasceu uma úlcera crônica varicosa. “Nessa época, eu já estava com sobrepeso e a médica me orientou a procurar um profissional para começar a emagrecer”, relata.

Entre 2010 e 2016, Pôncio fazia check-up a cada seis meses, para acompanhamento. “Sempre tinha alguma alteração de taxa. Isso estava ligado ao meu estilo de vida e também à questão hormonal. Todos os dias quando eu saía do trabalho, ficava cerca de duas horas no barzinho, provando um espetinho, tomando cerveja, e aí, fui ‘crescendo’. O álcool e o tabagismo ajudaram muito a desencadear a obesidade”, relata.

Hoje, Pôncio está com 230 quilos, mas já chegou a 240. Junto com o aumento de peso vieram as consequências. O encarregado de obras tem pressão alta, é pré-diabético, toma vários medicamentos e foi afastado do trabalho em 2019. “Vivo do auxílio-doença, que é cortado vez ou outra e eu sempre recorro para ter direito ao benefício. Para me virar, trabalho como motorista por aplicativo, quando dá”, conta.

O aumento constante de peso fez surgir uma segunda úlcera, desta vez, na perna direita, ainda em estágio menos avançado do que a da perna esquerda, que apresenta um ferimento. Segundo Pôncio, foram necessárias adaptações na casa onde vive, no bairro de Cidade Satélite, por causa dos quilos em excesso. “Tive que aumentar o box do banheiro, troquei o vaso sanitário e a cama”. As dificuldades para caminhar fazem parte da rotina de Pôncio, que reclama também da falta de acessibilidade para a realização de tratamentos médicos, por falta de equipamentos adaptados.

Apesar da maratona, com a retomada das cirurgias no Huol, Pôncio espera conseguir realizar o procedimento o mais rápido possível. “Acredito que agora vai dar tudo certo”, afirma. A TRIBUNA DO NORTE apurou que, apesar da previsão de cirurgia, o paciente não chegou a ser regulado em 2020. O motivo, conforme explicou segundo confirmação da Secretaria Municipal de Natal (SMS/Natal), é que Pôncio se afastou do processo para tratar uma erisipela e não retornou, o que ele nega.

“Na verdade, o que eu estou tratando é a úlcera, mas nunca me afastei do processo por causa disso”, afirma. Pôncio relatou que, desde o início do processo em 2016, enfrentou dificuldades e nunca conseguiu finalizar o acompanhamento. “Sempre acontecia algo que me impedia de seguir. Na mudança de gestão, quando Álvaro Dias assumiu o lugar de Carlos Eduardo na Prefeitura, por exemplo, o sistema ficou desativado por seis meses. Como essas dificuldades, eu tive que retomar várias vezes as avaliações”, relata.

O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Fábio Viegas, explica que a cirurgia é indicada para pacientes com três graus diferentes de obesidade. Segundo ele, a indicação, em primeiro lugar, é direcionada a pessoas com obesidade mórbida – com Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 40.

“O IMC é a relação entre o peso e a altura do paciente. É a conta que a gente faz com o peso em quilogramas e a altura ao quadrado, em metro. Nessa relação, se o valor for maior do que 40, a pessoa está com obesidade mórbida. Nesse caso, não é preciso haver doenças associadas para uma indicação cirúrgica, porque, do ponto de vista estatístico, esse paciente possui 1.420% mais chance de morrer do que uma pessoa num peso dito normal”, esclarece o especialista.

A segunda indicação, de acordo com ele, é para aqueles pacientes que têm um IMC entre 35 e 40. São os chamados obesos graves e, nesse caso, é necessária a comprovação de uma doença associada, como hipertensão, diabetes, apneia do sono e outras. São mais de 20 doenças associadas à obesidade. A terceira indicação é para o paciente diabético que possui obesidade moderada, com IMC entre 30 e 35.

Fonte: Tribuna do Norte.

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