DATA DE VALIDADE EM COSMÉTICOS NÃO É SÓ UM NÚMERO, É PRECISO RESPEITAR

DATA DE VALIDADE EM COSMÉTICOS NÃO É SÓ UM NÚMERO, É PRECISO RESPEITAR
Muita gente deixa os cosméticos no banheiro, mas o calor e vapor do local podem prejudicar os produtos. — Foto: lubovlisitsa/Pixabay
Muita gente deixa os cosméticos no banheiro, mas o calor e vapor do local podem prejudicar os produtos. — Foto: lubovlisitsa/Pixabay

É uma situação triste e que muitos de nós nunca quer enfrentar: ter que jogar fora nossos produtos de beleza. E isso se torna especialmente difícil se amamos algum item em particular, seja ele um batom que saiu de linha, um hidratante importado ou um protetor solar difícil de encontrar.

Mas a despedida é necessária quando a validade daquele item expirou. Segundo a dermatologista Paola Pomerantzeff, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, a maioria dos produtos tem uma vida útil de dois a três anos, mas existe uma série de variáveis que indicam a rapidez com que um produto irá expirar, incluindo os ingredientes e quaisquer conservantes usados na fórmula.

Vida útil x data de validade

“Além disso, a vida útil e a data de validade não são a mesma coisa. A data de validade do seu produto é o prazo garantido pela empresa para a estabilidade da fórmula, mas ele pode sofrer alteração no momento em que você abre o produto. Procure o rótulo PAO – ou período após a abertura. O símbolo parece um frasco aberto. Ele indica a vida útil do produto depois de aberto, que é normalmente entre seis meses a um ano”, afirma a médica.

“De modo geral, é necessário ficar atento às alterações de cor, textura, e cheiro dos produtos. Essas mudanças geralmente indicam oxidação dos ativos, o que torna o produto ineficaz, ou crescimento de microrganismos, que pode causar reações alérgicas”, explica a médica.

Segundo a farmacêutica Maria Eugenia Ayres, pós-graduada em Farmacologia Clínica e Gestora Técnica da Biotec, há dois motivos principais que tornam fundamentais a determinação do prazo de validade dos cosméticos: a perda da efetividade do produto e a intolerância. “Por exemplo, com o passar do tempo um creme despigmentante pode perder sua capacidade de clarear, assim como um protetor solar de proteger dos raios solares.

Intolerâncias, reações alérgicas ou infecções também podem acontecer em razão do tempo prolongado de armazenamento”, explica. “Conservantes são substâncias adicionadas a esses produtos a fim de aumentar a sua durabilidade – sendo um dos fatores que interferem no prazo de validade, evitando o crescimento de microrganismos”, acrescenta.

A cosmiatra, especialista em dermatocosmética e diretora científica da Be Belle, Ludmila Bonelli, completa:

“Prazo de validade é o tempo em que um produto pode ser armazenado e manter qualidade e confiabilidade. Após o fim do prazo, a qualidade do produto pode ser prejudicada e o fabricante não se responsabilizar mais pelo item. Sendo assim, é importante que o consumidor seja informado sobre o prazo de validade do produto cosmético que pressupõe a data até a qual o produto continua a cumprir a sua função inicial e permanecer seguro. Durante o tempo de validade, o produto cosmético deve cumprir os requisitos necessários para a sua utilização, sendo garantida a sua qualidade e segurança”.

Mas como se chega a uma data?

Segundo Maria Eugenia, o prazo de validade depende de diversos fatores intrínsecos e extrínsecos: a composição da fórmula, as condições de higiene ao longo do processo produtivo, condições de armazenamento, os métodos de processamento e até o tipo de embalagem utilizada. Além disso, existem quatro parâmetros que influenciam diretamente na vida útil de um produto, são eles: o microbiológico, o físico-químico, o bioquímico e o sensorial.

“O processo que estabelece as validades engloba as análises de estabilidade desses produtos cosméticos. São estudos feitos para determinar as informações que indicam a estabilidade relativa de um produto nas diversas condições a que são expostos, desde o período de fabricação até o vencimento da validade. Por isso, esses testes, realizados em condições controladas de temperatura e umidade, são muito importantes”, afirma a farmacêutica.

O procedimento para definir esse prazo é realizado da seguinte forma: o produto é exposto a diversas temperaturas, altas e baixas, até que uma das suas características saia do padrão desejado. Assim, é possível estimar em quanto tempo essa degradação ocorreria em condições normais, tanto de um produto fechado quanto de um aberto. Periodicamente, as amostras são coletadas e, então, são realizados os testes microbiológicos e sensoriais.

“Os testes microbiológicos têm por objetivo verificar se a quantidade de microrganismos presentes ao longo do tempo está dentro do limite estabelecido pela Anvisa. Nos testes sensoriais, textura, aparência, odor e cor são analisados. Esses testes garantem a integridade do produto, mesmo que seguros microbiologicamente (em alguns casos o produto ainda se mantém dentro dos limites permitidos de microrganismos), suas características sensoriais já não são similares ao padrão exigido”, afirma Maria Eugenia.

Ludmila conta que os ingredientes dos produtos são divididos entre ativos (que de fato vão trazer o resultado proposto) e conservantes (que prolongam a validade, evitando a oxidação dos ativos e a contaminação) e ambos vão perdendo a eficácia ao longo do tempo. Com isso, o risco de oxidação e contaminação vai aumentando.

“Para cada matéria-prima utilizada na formulação desses produtos existe uma característica particular e individual para que se estipule uma data de validade. Produtos cosméticos normalmente têm uma durabilidade mínima inferior a 30 meses, e que deve ser indicada no rótulo como uma data limite de utilização. Esta informação deve ser mencionada por meio de símbolo ou em seguida da data, em dia/mês/ano ou mês/ano”, explica a cosmiatra.

Segundo a Resolução N° 79 de 2000 do Ministério da Saúde e suas atualizações, e a Lei 8.078/90 – Código de Proteção e Defesa do Consumidor- o prazo de validade, antes de ser um requisito legal, é, sobretudo, um requisito técnico de qualidade, pois um produto instável do ponto de vista físico-químico, microbiológico ou toxicológico, além da perda de eficácia poderá também causar algum dano e comprometer a confiabilidade frente ao consumidor. A partir da realização de todos os testes citados acima consegue-se estabelecer a data de validade de um cosmético industrializado.

Data não é colocada à toa

Mas se o produto venceu no dia 20, não posso mesmo usá-lo no dia 25? “A primeira regra sobre a validade de cosméticos é clara: tem que respeitar a data, sim. O prazo de validade em uma embalagem não é informado à toa. Ele que garante a eficácia e segurança dos ingredientes”, adverte Ludmila. Já Maria Eugenia lembra que, após a expiração do prazo de validade, não é possível garantir as concentrações dos ativos na formulação e que, além disso, também há o risco de reações alérgicas como coceiras, vermelhidão ou até mesmo irritação dos olhos.

Alguns itens mais sensíveis expiram mais rapidamente? Maria Eugenia conta que cosméticos que possuem na composição derivados de gordura e óleo são sensíveis à oxidação, assim como aqueles à base de vitamina C, hidroquinona e ácidos, que também expiram mais rapidamente por este motivo. A oxidação de ingredientes em produtos cosméticos pode gerar problemas como alteração de cor e odor, além da rancificação de óleos e gorduras.

Maquiagem demora mais para “expirar” que cremes?

Maria Eugenia lembra que há diferentes tipos de validades e que variam de acordo com os itens de maquiagens. Normalmente, produtos para área dos olhos, como máscara para cílios, têm uma validade menor que um produto para os lábios como um batom, por exemplo. A forma como se guarda a maquiagem também pode interferir na durabilidade do produto. “Maquiagens guardadas em banheiros, ou dentro de lugares quentes como o carro, apresentam uma validade menor”.

Séruns e hidratantes, por exemplo, segundo Paola, tendem a durar cerca de um ano desde a abertura, mais ou menos, dependendo da fórmula e dos ingredientes usados. Produtos que contêm óleos essenciais, por exemplo, podem se degradar mais rápido, especialmente quando armazenados de forma  incorreta, o que pode torná-los menos eficazes. “Se você não tiver certeza se o seu sérum ou hidratante expirou, verifique como sua pele reage a ele em comparação com quando você começou a usá-lo – frequentemente, hidratantes vencidos não serão tão hidratantes. Além disso, mudanças na textura (como separação) ou mudanças no odor de seu produto podem indicar que pode ser hora de renová-lo”, afirma a médica.

Se você usar o protetor solar diariamente, como é indicado, ele terminará antes que a data expire. — Foto: rawpixel/Freepik
Se você usar o protetor solar diariamente, como é indicado, ele terminará antes que a data expire. — Foto: rawpixel/Freepik

Outro item importante para os cuidados com a pele: protetor solar. “Pela lógica, é o produto que mais devemos utilizar. Afinal, sua aplicação é diária e a reaplicação de pelo menos duas vezes ao dia se faz necessária. Então, ele não deveria entrar em questão quando o assunto é vida útil”, diz a médica. “Se você criar o hábito de usá-lo todo dia, não precisará pensar se deve ou não utilizar um protetor solar aberto no verão passado (porque ele teoricamente já teria acabado)”, afirma a médica.

Mas se você percebeu alguma mudança na textura, cor ou cheiro desse produto, o melhor a fazer é descartá-lo. “O filtro solar tem se mostrado eficaz na prevenção do câncer de pele, que pode ser fatal em alguns casos. Realmente não vale a pena correr o risco. Use um produto que você tenha a segurança de que está realmente te protegendo”, diz Paola.

Quais erros as pessoas mais cometem ao armazenar os produtos?

Os erros mais comuns, como os citados acima por Maria Eugenia, são guardar produtos em lugares úmidos como banheiros, ou, ainda, deixar a nécessaire de produtos dentro de locais quentes, como os automóveis. Ludmila cita outros:

– Deixar o produto aberto ou não fechá-lo totalmente; isto pode oxidar a formulação e, assim, ocorrer a perda de resultado;
– Usar dedos e mãos para retirar o produto da embalagem: a contaminação por bactérias existentes pode ser repassada aos produtos e contaminá-los;
– Deixar o produto no sol ou na claridade: a luz ou o calor podem interferir na formulação do produto;
– Carregar o produto sempre na bolsa.

Ela afirma que é fundamental garantir o armazenamento correto dos cosméticos, de modo a preservar a durabilidade de cada um deles. Sempre deixe-os em locais ventilados, sem claridade e longe do calor ou do sol. Portanto, nada de mantê-los no banheiro ou em uma penteadeira que seja alcançada por raios do sol.

Outro ponto importante que a farmacêutica destaca é a importância dos conservantes. Eles aumentam a vida útil dos produtos, garantindo a segurança e prevenindo a perda de eficácia. São adicionados às formulações para evitar a proliferação de microrganismos capazes de prejudicar o aspecto do cosmético e comprometer a segurança: “A utilização dos conservantes é necessária, pois não existe um ambiente 100% estéril para fabricação de qualquer produto. Dessa forma, bactérias, fungos e leveduras podem degradar substâncias presentes e deteriorar o cosmético, fazendo com que ele mude de textura, cor e odor. Cosméticos formulados sem conservantes apresentam uma durabilidade extremamente menor e perdem sua eficácia de maneira muito mais rápida também”.

Por que você não deve usar produtos vencidos

Paola afirma que alguns efeitos colaterais do uso de produtos vencidos são mais prejudiciais do que outros, mas todos produzirão efeitos indesejáveis com o tempo, mesmo que isso signifique apenas que eles se tornaram ineficazes: “O prazo de validade marca o intervalo de tempo que uma fórmula vai manter em termos de estabilidade da fórmula, compatibilidade e conservantes”, diz a médica. Ela ainda acrescenta:

“Depois que você ultrapassa o prazo de validade testado, as fórmulas podem começar a ficar grosseiras e os conservantes, como já não estão no seu melhor potencial de eficácia, podem expor sua pele à contaminação microbiana indesejada. E esta pode levar a qualquer coisa, desde irritação, erupções e, em casos realmente graves, até infecção”.

O também dermatologista Abdo Salomão Jr afirma que, felizmente, alguém chegar à clínica com problemas causados pelo uso de cosméticos vencidos não é frequente. “Não é tão comum. Sabemos que não devemos usar nada vencido, mesmo que seja algo que apenas passamos sobre a pele, como uma maquiagem, já que o produto pode estar contaminado por bactérias ou os princípios ativos podem ter se transformado quimicamente em algo capaz de gerar uma alergia”.

O risco de utilizar um produto vencido, seja um cosmético, uma maquiagem ou mesmo um medicamento em forma de creme, está no fato dos princípios ativos poderem sofrer alterações pelo tempo, pelo calor ou umidade, gerando algo nocivo para a pele. Além disso, há o risco de contaminação bacteriana, que pode causar uma infecção, o surgimento de acne ou até uma dermatite irritativa.

“O mais comum é o surgimento de espinhas, pois esses produtos vencidos podem conter bactérias que podem entrar nos folículos pilosos ou nas glândulas sebáceas e causarem acne. Mas o produto também pode induzir o organismo a produzir anticorpos contra os elementos químicos do produto ou gerar uma irritação superficial”, comenta Abdo Jr.

Infecção bacteriana

Além disso, essas bactérias podem causar uma infecção bacteriana na superfície da pele, um eczema bacteriano. Problema que pode, em alguns casos, deixar cicatrizes, causar manchas e piorar quadros de melasma. “Complicações do uso de produtos vencidos vão desde problemas mais simples, como o surgimento de espinhas, até mais graves, como essa infecção bacteriana na superfície da pele, que pode evoluir, inclusive, para celulite, que é uma inflamação do tecido celular subcutâneo. Isso sem falar na indução do organismo a produzir anticorpos contra os princípios ativos do próprio produto”, indica o médico.

E se por descuido ou distração eu usar um cosmético vencido e só perceber depois? O dermatologista diz que não há problema. Basta interromper o uso e jogar o produto fora: “Caso não observe nenhuma reação, não há motivo de preocupação. A reação provocada pelo uso de um cosmético vencido é precoce e não tardia. Ou seja, ou você observará uma reação após 24/48 horas do uso ou não a terá mais”.

Abdo Jr acrescenta que, de forma geral, os produtos industrializados têm uma validade longa. Já os manipulados possuem uma mais curta, pois não são feitos seguindo todo o rigor da indústria, principalmente com relação à questão da esterilidade e uso de conservantes.

Veja abaixo o prazo de validade médio de alguns produtos, segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia:

  • Sombras compactas: 36 meses
  • Bases aquosas: 12 meses
  • Bases oleosas: 18 meses
  • Rímel: 6 meses
  • Corretivos: 18 meses
  • Batom: 48 meses
  • Pó solto ou compacto, iluminador, blush: 18-24 meses
  • Gloss labial: 6-12 Meses
  • Delineador: 6-12 Meses

Fonte: Dr. Jairo Bouer, UOL.

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