No Rio Grande do Norte, dos 512 mil idosos, 53,7 mil vivem sozinhos

“Eu não tenho ninguém. Meu marido faleceu vai fazer oito anos e estou aqui. Meus vizinhos vem me ajudar, mas sinto muito medo. Desde que começou esse vírus, eu me sinto cada dia mais triste e com medo de morrer e ninguém saber”. A voz cansada de Maria das Dores Bezerra (71), moradora do bairro de Nossa Senhora Apresentação na Zona Norte de Natal, expressa a preocupação que pode sentir um idoso que mora sozinho hoje. No Rio Grande do Norte, existem 512 mil pessoas com 60 anos ou mais. 214 mil são homens e 297 mil, mulheres. Os que vivem sozinhos e estão em isolamento somam 53.786 pessoas como Maria Bezerra.

Com o avanço do covid-19 no Brasil, somado ao número de mortes e as comprovadas complicações em idosos com mais de 60 anos, os que estão sozinhos em isolamento são as maiores preocupações dos  médicos. O epidemiologista Ion de Andrade aponta que os idosos são a grande prioridade no enfrentamento dessa pandemia, juntamente com os doentes crônicos. “Se analisarmos a curva dos países com a crise mais avançada, a concentração da letalidade está no grupo dos idosos e pessoas com problemas crônicos. É essa população que sobrecarrega os hospitais e o serviço publico. Isso significa que se conseguirmos proteger nossos idosos, nós evitaremos essa sobrecarga e teremos um menor número de mortalidade”, disse Ion Andrade à TRIBUNA DO NORTE.

De acordo com o último boletim epidemiológico, divulgado pelo Ministério da Saúde, às 17h00 da sexta-feira (27), o Brasil tinha 3.417 casos confirmados do novo coronavírus (Sars-Cov-2). Relatórios do Ministério da Saúde mostram que os casos mais graves estão entre pessoas de 60 e 79 anos. De acordo com boletim do Sistema de Informação de Vigilância da Girpe (SIVEP-Gripe), atualizado no último dia 26 de março, de um total de 391 casos graves de covid-19 avaliados, cerca de 80 pessoas tinham entre 60 e 69 anos e outras 70 pessoas, entre 70 e 79 anos. Há alto registro, porém, de pessoas contaminadas com idade entre 30 e 49 anos. Essa é a faixa de maior contaminação no Rio Grande do Norte.

No quadro de vítimas fatais, ainda de acordo com dados do Ministério da Saúde, o perfil dos óbitos mostra uma concentração entre idosos. Dos 92 óbitos por covid-19, 76  (82,6% do total) ocorreram no grupo de pacientes com mais de 60 anos, sendo mais concentrado na faixa de 80 a 89 anos.  Eram pacientes internados com quadro de Síndrome Respiratória Aguda (SRAG) por covid-19. Os dados apontam ainda que 85% apresentam  pelo menos um fator de risco.

No Rio Grande do Norte, até a sexta feira, o registro era de 28 casos da doença confirmados, sendo dois entre pessoas com mais de 59 anos, e nenhum óbito confirmado. Quatro mortes estavam em investigação, uma em Parnamirim e três em Assu. Entre os casos suspeitos, que no Estado são 1.487, pelo menos 130 notificações são de pessoas com mais de 59 anos. 

Avanço da doença

No Brasil, o avanço da doença está acelerado: até sexta-feira, foram 25 dias desde o primeiro contágio confirmado até os primeiros 1.000 casos (de 26 de fevereiro a 21 de março); três dias dos 1.000 casos para 2.000 (de 21 de março para 24 de março); e mais três dias de 2.000 para 3.000 (de 24 de março para 27 de março). A média diária, segundo boletim do Ministério da Saúde, estava, na sexta-feira, em 502 casos novos nas últimas 24 horas, um incremento de 17,2% em relação ao dia anterior.  No RN, esse número tem crescimento diário de 33%.

Dona Maria Bezerra, que tem problemas cardíacos e toma remédios controlados, se preocupa em não ter a quem recorrer caso seja infectada. “Eu tomo muito remédio controlado. Hoje são os vizinhos que me ajudam, mas mesmo assim ainda saio de máscara vou ao mercadinho quando preciso. Sou diabética, tenho o colesterol alto, tenho gastrite”, contou Maria.

As saídas, mesmo que rápidas são riscos para a saúde de Maria. Ela recebe remédio com prazo de três meses, e no dia da entrevista, um dos remédios para o coração acabou. “Estou triste demais com essas coisas. Não sei fazer conta. É muito difícil morar sozinha, idosa no isolamento. Se não fossem meus vizinhos eu já estaria morta. Moro em Nossa Senhora da Apresentação. Não passou ninguém da saúde para avisar a gente sobre o vírus. Me informo através da televisão. Tenho muito medo dessa doença me levar e eu estar aqui sozinha”.

Na Espanha e Itália, muitos idosos foram encontrados em isolamento já sem vida. O Ministério da Defesa do Espanha, anunciou recentemente que militares espanhóis encontraram idosos abandonados em casas de repouso e, em alguns casos, mortos em suas camas. O mesmo aconteceu em países como a China.

Cuidados diferenciados

“Através das pesquisas com os gráficos e através dos números crescentes, percebemos que não adianta apenas retirar as crianças da escola. Isso não será suficiente, o isolamento não será suficiente e os idosos precisam de cuidados de maneira diferenciada ou eles vão morrer no isolamento, dentro de casa. Tudo isso precisa ser pensado em tempo real”, explica o epidemiologista professor Ion de Andrade

Para ele, agora mais do que nunca é preciso aprofundar mais os cuidados e acompanhar os idosos. “Isso significa dizer que não basta o isolamento social. A gente precisa proteger os idosos nos seus domicílios. Apartado dos cuidados com os netos, ser cuidado e ter o distanciamento das pessoas. Ele precisa comer sozinho, ocupar somente um cômodo da casa e ter cuidados mais severos e além disso os que moram só precisam de acompanhamento”, afirma o epidemiologista.

Fonte: http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/no-rio-grande-do-norte-dos-512-mil-idosos-53-7-mil-vivem-sozinhos/476122

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