OBITUÁRIO

OBITUÁRIO

DR. NIVALDO SERENO DE NORONHA JÚNIOR

Faleceu no dia 01 de Julho de 2020, vítima de Covid, aos 52 anos, o Dr. Nivaldo Júnior.
Nascido em Natal em 08 de Dezembro de 1967, Dr. Nivaldo formou-se em medicina pela UFRN no ano 2000, foi titulado em Pediatria pela SBP em 2004, Presidiu a Sociedade de Pediatria do Estado de 2010 a 2016 e era Diretor do Sinmed desde 2017. Trabalhava no Hospital Sandra Celeste e no José Pedro Bezerra, o Santa Catarina. Era um Pediatra abnegado, querido pelos colegas e pacientes, jeito meigo, juvenil, voz tranquila, meio menino, apaixonado pelo trabalho, pela profissão médica e pelas crianças a quem se devotava, muito religioso, filho amoroso.
Perder alguém assim é doloroso, muito mais a nós, colegas de profissão médica e de Diretoria do Sinmed.
Sempre que nos encontrávamos em visita aos hospitais destacava-se sua preocupação no cuidado e proteção aos pacientes que cuidava, sempre exigindo condições de cuidar melhor das crianças.
Mês de junho, normalmente de tantas alegrias no Nordeste, pega de cheio o pico da Pandemia, no dia 03 Nivaldo publicava: Não quero me acovardar, mas estou vendo o perigo cada vez mais perto de mim. Homem de muita fé, na linha de frente do cuidados às urgências pediátricas, desabafava no dia 04: medo tomou conta do meu dia a dia.
Todas as fotos e postagens mostravam sua preocupação com os equipamentos de proteção e a necessidade das pessoas se resguardarem, evitando se expor à infecção pelo coronavírus. Cansado, às vezes, no final do dia, pedia: quero pedir por proteção divina e força interior para superar minhas fraquezas do final do dia.
No dia sete, quase em oração publica: Nossa Senhora não nos desampare. Me dê força e saúde para cuidar de quem está precisando.
Dia nove aparece rezando mais uma vez. E, racionalizando, tenta se tranquilizar da angústia de quem tem medo e quer viver, publica que pacientes asmáticos como ele parecem ter uma enzima diferenciada que protege contra os casos graves de Covid.
Mas não seria assim. No Dia 10, uma postagem mostrava a inversão de médico para paciente, e o reconhecimento da fragilidade humana: às vezes os papéis mudam e passamos a ser fracos também. Que Nossa Senhora esteja aqui comigo. A doença não deu trégua, dia 13 ele posta e diz que que não pode falar muito, mas que tem fé em Deus e Nossa Senhora de que sairá dessa. E mostra sua procupação com todos, rezem não só por mim, mas por vocês, seus familiares e os que estão acometidos por essa doença. Dia 14 é a última postagem no facebook: é uma sensação muito ruim estar com essa doença desconhecida, são momentos que me deixam em uma fraqueza respiratória, mas que ao mesmo tempo acredito no poder da oração e tenho logo a imagem de Deus e de Nossa Senhora de Fátima me dando o suporte necessário. Acredito que sairei curado dessa doença. E não esquecia de pedir pelos outros: Eu só te agradeço, Senhor! E vamos continuar rezando por todos que se encontram com essa doença que só vós tens o poder da cura.
A ida para a uti é um salto no escuro, a falta de ar que faz procurar em desespero um respirador, lembra os braços ansiosos do trapezista que, em salto no vazio, procura o trapézio que balança como salvação. Aí, cessam as publicações de Nivaldo e nas comunicações internas da diretoria do Sinmed nos alcança o espanto, o pavor: Nivaldo foi para Uti e está intubado.
Seguiu-se o drama que segue o curso da Covid, em sua forma grave, trocas gasosas prejudicadas, ventilação com altas frações de oxigênio, pronação, instabilidade hemodinâmica, complicações renais, cada dia é um desafio, a vida por um fio, mantida a duras penas por máquinas que ajudam o organismo já impotente para reagir ao ataque do vírus.
No dia 18 visitei o São Lucas, onde estava internado, e conversei sobre seu caso: muito grave, me disse o intensivista. O quadro muito arrastado leva a dois caminhos, um esforço de resistência do organismo e um lento recompor-se até a recuperação ou uma lenta agonia, que vai de falência em falência até a morte. Dia 30 encontro-me de novo com o intensivista e nova informação: gravíssimo. Perguntei com medo: é irreversível? Ele me disse é imprevisível. Hoje, dia primeiro de julho, faleceu às primeiras horas no novo dia. Coro de anjos devem ter lhe preparado a travessia, Nossa Senhora de Fátima de quem era tão Devoto deve tê-lo conduzido para ver face a face o Deus que tanto amou.

Dr. Geraldo Ferreira – Pres. SinmedRN

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